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2 de abr. de 2009

O goleiro tântrico

O futebol é uma cultura passada dos pais para os filhos. Sim, meu amigo, a mãe é peça importante no processo. Eu mesmo, se não estou enganado, me criei colorado por causa da minha mãe, que tolerou meu fanatismo desde quando eu pronunciei minha primeira palavra: Papai. E das palavras seguintes: É o maior!

Você deve conhecer muitas famílias em que os pais torcem por clubes diferentes. Bom, daí não sei bem como funciona a formação das crianças-torcedoras, em que momento começa o gosto e por qual time, se pelo do pai ou o da mãe, ou mesmo de outros que venham a influenciá-los. As variantes são muitas.

O primeiro pediatra do meu filho – não recordo o nome dele, infelizmente – estava vestindo uma camisa xadrez vermelha e branca naquela que seria uma consulta normal para um recém nascido. Após adentrar a sala, ele me fez a primeira pergunta, “Colorado?”, no que respondi tranquilamente, “Sim, Doutor”. Então ele colocou o Jean numa balança, virou-se pra mim, olhou fundo nos meus olhos e disse, “Lá em casa somos uma família de colorados. Meus avós, meus pais, minha mulher, enfim. Casei cedo e tivemos logo dois filhos. Após dez anos veio o terceiro filho. Dez anos faz muita diferença, já não cercamos de atenção ao caçula tanto quanto aos outros dois mais velhos, apesar do amor e afeto serem iguais a todos. Mas é que a vida corre e os afazeres, as responsabilidades, tudo muda com a idade... então o caçula foi cuidado por uma babá”. Nisto o Jean já estava no colo da mãe, o Doutor sentado à sua mesa, eu bem à sua frente ainda olhando-o nos olhos. Continuou ele, “Quando meu caçula estava com cerca de dois anos, ouvi-o pronunciar ‘guêmio’! Primeiro gelei, ainda não tinha certeza do significado daquilo que tinha ouvido, mas ele repetiu – ‘guêmio’. Olhei para os lados buscando a resposta para o meu pavor. Então me ocorreu de perguntar para a babá: - Minha filha, pra que time você torce? No que ela disse: - Grêmio. Hoje meu caçula tem 16 anos e continua sendo gremista. É a ovelha negra da família, o elo cortado de uma tradição”. Entregando-me um papel rabiscado, com lágrimas nos olhos, ainda disse antes de irmos embora, “Não deixem isso acontecer com o filho de vocês... mesmo que um dia ele venha a ser goleiro, o mais importante é o time, é o Inter”. As mais das coisas que foram ditas naquele dia, naquele consultório, não recordo. Talvez a Gareth tenha lhe dito que o seu ídolo era o Taffarel, motivo pelo qual ele falou dos goleiros. O caso é que o Jean, há dois dias, me contou que os colegas lá da escola disseram que ele será “uma lenda no gol do Gonzaga”, e que o treinador disse para comprar um “calção com espumas nas laterais e um par de luvas”. Goleiro! O gol é o êxtase do futebol, e o goleiro é o jogador que está lá para impedir, para evitar que isto aconteça, é o cara que retém o orgasmo da multidão. Eu sempre fui atacante, sempre debochei e desfiz dos goleiros, mas em compensação minha criação foi brahmáchárya. Já o Jean está tendo uma criação completamente desrepressora, sensorial e matriarcal. Lembrei daquele pediatra que olhou para os lados em busca de uma resposta para o seu pavor. Eu apenas olhei para a Gareth.