Sabe quando se está num estado de felicidade inefável, em que tudo é belo, o ar mais leve, as flores mais perfumadas, a vida mais colorida?! Tá bem, ok, não cabe tanto exagero por umas poucas vitórias no xadrez, mas é que realmente foram boas as minhas últimas na semana que passou; houve pelo menos duas viradas fantáticas que me alegraram por dias. Como não costumamos jogar nos finais de semana, tive um pouco mais de tempo para curtir meu bom momento. Ainda ontem dei-me conta de que estava subindo as escadas aqui do prédio de dois em dois degraus. A boa fase é para ser curtida. Mas aprendam, meus queridos, que esta é justamente a hora de se fazer saldo e marcar a História. Nestes dias de confiança não há de se ter dó do adversário; goleiem, dêem um olé, façam um duplo xeque ou um pastor se possível, respeitem-no com sequências de conquistas para poder contar aos seus filhos e netos que um dia você foi um enxadrista digno de um tabuleiro de mármore, porque certamente e quando você menos espera - mas desconfia -, chegará a virada de jogo. Você tomará um chekmate pastor inexplicável, tomará uma hóstia amarga e quererá revanche e será humilhado mais uma vez e não entenderá bem e quanto mais jogar, mais afundará e verá sua auto-estima como num estado de yôganídra, lúcida, consciente, mas completamente colada ao chão. Sabe quando as costas encurvam e o ar está mais carregado, os dias de outono mais cinzentos ameaçando chuva e você não consegue mais sorrir espontaneamente? Tá bem, ok, também não cabe este exagero por umas derrotas sofríves no começo de semana. Mas o certo é que amanhã descerei as escadas segurando-me pelo corrimão.
Rogério Peres